22/11/2018 às 20h36min - Atualizada em 22/11/2018 às 20h36min

O MIMIMI DO “POLITICAMENTE CORRETO”

Estamos correndo o risco de perder a naturalidade, a espontaneidade, as brincadeiras sadias e a cultura tradicional vivida com total liberdade de expressão e com muito mais alegria.

Antonio Brasil Vieira
O “politicamente correto” fugiu ao controle, está excessivamente radical, controlador, cerceando o sagrado direito da livre expressão e tentando criar uma nova regra de pensamento para o mundo. Trata-se, portanto, de um fenômeno mundial que precisa ser combatido com doses fortes de lucidez, bom senso e educação.

O termo politicamente correto já teve diversos significados. Um dos primeiros registros de seu uso data de 1793, quando foi citado para falar de algo que era literalmente politicamente correto – ou seja, correto em termos de política – em uma decisão da Suprema Corte Americana. Depois disso, já foi usado para descrever ideologia política e para ironizar possíveis exageros entre o próprio grupo que usava o termo. Em seguida, ser politicamente correto passou a significar escolher palavras que não ofendam grupos minoritários e oprimidos, como mulheres, negros, gays e deficientes.
 
Ultimamente, ganhou força o uso de “politicamente correto” como termo pejorativo. O presidente americano, Donald Trump, normalmente se defende de acusações dizendo que seus detratores querem enquadrá-lo em uma espécie de ditadura do politicamente correto. O Presidente eleito Jair Bolsonaro adota discurso semelhante. Já afirmou, por exemplo, que com ele “não existirá o politicamente correto”.
 
Certo é que foi apenas nos anos 1990 que o termo passou a ser associado a sentimentos partidários, cujo uso é ligado à esquerda e o desprezo, à direita. Segundo Clive Hamilton, a discussão ganhou força nas universidades, onde matérias tradicionais estavam sendo substituídas por outras, como feminismo e pós-colonialismo. Isso levou conservadores a acusar a esquerda de impor sua visão e reprimir pensamentos opostos, usando como justificativa o politicamente correto. Essa mensagem se espalhou para fora da academia.
 
No Brasil, há quem entenda que se trata de um desdobramento da educação de baixa qualidade. Os testes de avaliação de aprendizagem nacionais e internacionais tem demonstrado a enorme dificuldade dos estudantes brasileiros na interpretação de textos. Agrava ainda mais essa leitura distorcida da realidade a ditadura do pensamento único imposto nas universidades brasileiras ao invés da pluralidade de pensamento. O nível da educação no Brasil está tão aquém do razoável que é possível encontrar analfabetos funcionais com certificado de conclusão de curso superior.

É espantoso como esse movimento chegou até a patrulhar o carnaval brasileiro deste ano. Um certo grupo, afeito ao politicamente correto, tentou de todas as formas ditar regras, determinando que sete tipos de fantasias deveriam ser banidas dos desfiles, blocos, bailes e festas carnavalescas por atentarem violentamente contra pretensos excluídos, discriminados e desfavorecidos. Portanto, fantasias como “Nega Maluca”, “Índio” e “Cigano”, devem ser proscritas já que, segundo o grupo, têm um alto teor de racismo aliado a um deboche velado sobre  civilizações primitivas que enxergam nas fantasias de carnaval com tais temáticas um verdadeiro insulto às suas tradições de povo e nação. A primeira, seria um desrespeito intolerável à mulher negra. Uma apropriação cultural racista com a finalidade de ridicularizar as afrodescendentes.

Para os fanáticos do politicamente correto fantasiar-se de “Doméstica” ou “Enfermeira”, evidencia nítida relação de poder entre classes profissionais na sociedade e, por se apresentarem normalmente em trajes curtos e sensuais, explicita uma odiosa cultura machista e sexualizada sobre elas. Por fim, fantasiar-se de “Iemanjá” ou “Muçulmano”, nem pensar, a divindade do Candomblé e da Umbanda já sofre o suficiente com a intolerância e racismo e usá-la como fantasia é prova cabal do desrespeito com essas religiões. Incorre no mesmo delito quem se veste com roupas e adereços usados por muçulmano por ser um flagrante desrespeito à crença islâmica.

Recentemente Silvio Santos e Claudia Leite foram protagonistas de um episódio lamentável da televisão brasileira. É difícil imaginar que Claudia Leite corresse qualquer perigo no palco do Teleton, uma campanha por doações solidárias. Ali era show business, com Silvio Santos interpretando o papel de mestre de cerimônias. Silvio estava evitando o toque, e não o procurando. Transformar esse episódio num caso de assédio, conforme certa gritaria que se seguiu nas redes sociais, provocou uma contraonda que resgatou um trecho de Claudia Leitte no The Voice. Nesse vídeo, a cantora convida um calouro a se sentar no "colinho" dela. Ele responde que, "nesse caso", ama a sua esposa. Claudia fecha os olhos, embaraçada. De novo, mais um caso anódino, diante de plateia, em que a piada morre sobre quem ousou gracejar. Nem Silvio Santos significou perigo para Claudia Leite, nem Claudia assediou o calouro. É alarmismo exagerado em espaços seguros, repletos de plateia e senso teatral. Mas os tempos são de extremismos.

É preocupante a difusão de pensamentos tão distorcidos. Vejam que as escolas estão deixando de celebrar o dia das mães e o dia dos pais, por força e pressão do “politicamente correto”. Estamos correndo o risco de perder a naturalidade, a espontaneidade, as brincadeiras sadias e a cultura tradicional vivida com total liberdade de expressão e com muito mais alegria. Antes desse movimento se estabelecer aqui o povo brasileiro era mais tolerante, o vitimismo não era modinha e não se via preconceito nas entrelinhas, como o fazem atualmente os arautos da polêmica, da intolerância e da maledicência.

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