Mensagens revelam troca de pagamentos e acesso a decisões judiciais em esquema investigado no AM

Manaus (AM) – Conversas extraídas de celulares durante a Operação Erga Omnes (que tem efeito ou vale para todos), indicam que investigados por integrar um núcleo político ligado a organização criminosa trocavam informações sobre pagamentos, processos e possíveis mandados judiciais. A ação foi conduzida pela Polícia Civil do Amazonas nesta sexta-feira (20).
As investigações revelaram que a facção contava com a colaboração de servidores públicos lotados em diferentes esferas do poder, incluindo o Tribunal de Justiça do Amazonas, a Assembleia Legislativa e a Polícia Militar.
Segundo a polícia, as mensagens estavam armazenadas no aparelho de Lucila Meireles Costa, presa em Teresina (PI). Nos diálogos, há registros de transferências via Pix e solicitações para verificação de processos em segredo de Justiça. Em um dos trechos, ela envia comprovante de pagamento ao servidor Izaldir Moreno Barros, pedindo consulta sobre eventual expedição de mandado de prisão.
Outra conversa mostra comunicação direta entre Lucila e Allan Kleber Bezerra Lima, apontado pela polícia como líder do núcleo investigado e atualmente foragido.
Segundo o delegado Marcelo Martins, títular do 24º DIP, o suspeito se apresentava como evangélico e frequentava uma igreja no bairro Zumbi dos Palmares, na zona leste de Manaus. Em um caso anterior, ele teria utilizado o templo religioso para ocultar drogas. As apurações indicam que espaços religiosos eram usados pelo grupo como forma de camuflagem para evitar a atuação policial, e que outro alvo da operação também residia em uma igreja.
A operação cumpriu 14 mandados de prisão, oito deles no Amazonas. Entre os alvos estão:
- Izaldir Moreno Barros – servidor do Tribunal de Justiça do Amazonas. A polícia aponta que ele recebia pagamentos para fornecer informações sigilosas de processos em segredo de Justiça, o que teria beneficiado o grupo criminoso.
- Adriana Almeida Lima – ex-secretária de gabinete de liderança na Assembleia Legislativa do Amazonas. Relatórios de inteligência financeira indicam transações milionárias ligadas ao esquema;
- Anabela Cardoso Freitas – investigadora da Polícia Civil que integra a Comissão de Licitação da Prefeitura de Manaus e foi chefe de gabinete do prefeito. A investigação diz que ela teria movimentado cerca de R$ 1,5 milhão em favor da facção por meio de empresas de fachada;
- Alcir Queiroga Teixeira Júnior – investigado por participação no esquema financeiro que movimentava valores suspeitos para a organização criminosa;
- Josafá de Figueiredo Silva – ex-assessor parlamentar de vereador, apontado pela polícia como parte da rede de influência do grupo;
- Osimar Vieira Nascimento – policial militar preso sob suspeita de envolvimento com as atividades do núcleo político investigado;
- Bruno Renato Gatinho Araújo – preso no Amazonas e incluído na lista de investigados pela operação.
- Ronilson Xisto Jordão – preso em Itacoatiara por suposta participação no esquema.
De acordo com a polícia, o grupo movimentou cerca de R$ 70 milhões desde 2018. As apurações indicam que empresas de fachada, principalmente nos setores de transporte e logística, eram usadas para adquirir drogas na Colômbia e enviá-las a Manaus. A partir da capital, os entorpecentes seriam distribuídos para outros estados.
A investigação também aponta que Lucila se apresentava como advogada sem registro na Ordem dos Advogados do Brasil e atuava como intermediária em pagamentos para obtenção de informações processuais.
Foragidos
Além de Allan Kleber, outros investigados permanecem foragidos, entre eles Núbia Rafaela Silva de Oliveira, ex-assessora de parlamentar em Manaus apontada como colaboradora do esquema. Segundo a polícia, ela participava de conversas sobre repasses financeiros e monitoramento de processos de interesse da organização.
Os investigados podem responder por organização criminosa, associação para o tráfico, corrupção ativa e passiva, violação de sigilo funcional, lavagem de dinheiro e ocultação de patrimônio.
Instituições reagem à Operação Erga Omnes
A defesa de Anabela Cardoso Freitas informou que ela não possui qualquer relação com organizações criminosas nem com os demais investigados. A defesa destacou ainda que ela é servidora pública concursada e reconhecida pela idoneidade.
O Tribunal de Justiça do Amazonas informou que já adotou medidas administrativas em relação ao servidor citado na operação. A Corte afirmou que preza pela legalidade, pela transparência e pela integridade e que não compactua com condutas incompatíveis com os deveres funcionais.
Já a Universidade do Estado do Amazonas declarou que não se responsabiliza por atos praticados por servidores fora do âmbito institucional. Sobre Adriana Almeida Lima, a instituição esclareceu que eventuais ações realizadas fora das dependências da universidade e do exercício das atividades acadêmicas são de responsabilidade exclusiva da professora. A UEA reafirmou compromisso com a ética, a legalidade e as normas que regem o serviço público.
Em nota, a Polícia Militar do Amazonas informou que o cabo preso na operação da Polícia Civil do Amazonas vai responder aos procedimentos na Justiça e também a trâmites administrativos na corporação. Segundo a PM, foi instaurado procedimento na Diretoria de Justiça e Disciplina. A instituição afirmou ainda que colabora com as investigações e não compactua com desvios de conduta.
A Prefeitura de Manaus informou que não é alvo da operação realizada. De acordo com a nota, nem o prefeito nem a estrutura administrativa do município fazem parte da investigação. A prefeitura declarou que mantém compromisso com a legalidade e a transparência e que eventuais servidores investigados responderão individualmente por seus atos, conforme a lei.
A Câmara Municipal de Manaus orientou que os questionamentos sejam direcionados aos gabinetes dos vereadores onde os investigados trabalharam.
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