08/12/2020 às 18h47min - Atualizada em 09/12/2020 às 00h00min

Brasil superestima a produção de energia hidrelétrica e o risco é de falta, sem a construção urgente de novas obras

Premissas da metodologia usada para apurar as reservas energéticas nos reservatórios pode ser a responsável por apagões no Brasil

SALA DA NOTÍCIA PAULA BATISTA
Enercons/Divulgação
A Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) aprovou novas normas que regulamentam os procedimentos para equacionar o chamado “risco hidrológico” A proposta tem como objetivo liberar 9 bilhões para o mercado de energia. Uma notícia importante para todos os investidores, em curto prazo, mas que não resolve o problema da capacidade energética para os próximos anos. “Essa pendência de 9 bilhões vai se repetir todas as vezes em que ocorrerem épocas de estiagem, que são completamente previstas não só pelos estudiosos, mas comprovadas por dados de mais de 70 anos de medição de chuvas, dominados por qualquer hidrólogo, por qualquer empresa de geração de energia. O fato é previsível e, portanto, perfeitamente evitável, se utilizarmos mais reservatórios com capacidade plurianual. A cada 11 anos a nossa Mãe Terra atravessa um período de desequilíbrio nas afluências. Não é que chove menos no mundo inteiro não, chove mais em algumas partes e menos em outras. Mas isso é tudo previsto”, comenta o engenheiro eletricista Ivo Pugnaloni, diretor da ENERCONS consultoria em energia, ex-diretor de Planejamento da COPEL.
            O especialista explica que no Brasil existe uma nota técnica chamada EPE/DEE/RE nº 099/2008 que estabeleceu a metodologia que os geradores devem usar obrigatoriamente, para calcular a garantia física de suas usinas, tanto as estatais, como as privadas, sejam elas grandes ou pequenas. Todas foram obrigadas por uma portaria do Ministério de Minas e Energia a adotar essa metodologia. “Essa metodologia é baseada num programa de computador que aplica um modelo matemático chamado Newave criado lá atrás, em 1986 e está em operação ainda, mais como todo modelo matemático, precisa partir de premissas fixadas pelos responsáveis políticos pela gestão do setor elétrico brasileiro. Acontece que dentre essas premissas, fixada pela EPE em 2008 existem cinco que estão equivocadas. Muito equivocadas. Todas produzindo um erro no sistema, que o faz superestimar em 18% para mais, a energia assegurada de todas as centrais hidrelétricas do Brasil. Essas premissas estão explicitadas na página 3, na tabela 1.da NT EPE/DEE/RE 0099/2008. E aquela que mais se destaca e mais erro provocou na avaliação da real capacidade de armazenamento é a premissa que obriga a não considerar no modelo matemático e na metodologia, as perdas elétricas nas interligações. Ou seja: a premissa equivocada manda considerara energia que está acumulada dentro de um reservatório de uma usina como se essa energia elétrica pudesse ser transferida para algum os centros de consumo sem perda elétrica. Algo impossível no mundo prático, em condições normais existir um transporte de energia sem perdas! Isso só poderia existir numa condição de temperatura de menos 273ºC, pois é nessa temperatura que cessa o movimento atômico e molecular. E aí não há perdas elétricas. Mas isso nem em laboratório ainda foi conseguido”, explica.
            O consultor afirma que há um erro nessa nota técnica e enquanto esse erro existir, enquanto essa nota técnica não for toda revisada pela Aneel e corrigida, com a participação da  sociedade brasileira, da academia, dos institutos de defesa do consumidor, todos nós continuaremos vivendo com ameaça de apagões, porque essa nota técnica superestima a capacidade dos nossos reservatórios. “Ela superestima a garantia física dos nossos reservatórios. E faz com isso com que os governos, Ministério, Aneel não se preparem para as crises de afluências com a antecedência devida, não se preparem para a diminuição natural, prevista, da afluência. Ou o que é pior: se preparem apenas quando é tarde demais, impondo o racionamento. Isso é a maior razão pela qual não se tem construído novas usinas, com novos reservatórios de água. Logo de agua doce, um bem que cada vez mais será valioso”, diz.
            A explicação é simples. Não se constroem mais reservatórios e usinas porque está superestimada a garantia física das atuais, porque se está pensando que temos mais do que realmente temos. Pois parte do que está armazenado será perdido na forma de calor, dissipado nos cabos das extensas linhas de transmissão. “É essa superestimação, provocada por uma premissa errada, pois qualquer estudante do curso secundário sabe que não se pode desconsiderar as perdas elétricas. É isso que provoca uma falsa sensação de segurança, e a não construção de novos reservatórios quando a população cresce como cresce no Brasil e não há mais usinas, sendo construídas no Brasil com a velocidade que deveria ser dada nesse processo.  Há uma perseguição completa contra usinas hidrelétricas, mesmo pequenas, que apresentam inúmeros benefícios. Em seu lugar há um claro privilégio à geração termoelétrica fóssil”, diz.
“Há privilégios porque o combustível fóssil é caro, poluente e importado e isso é benéfico para alguns grupos econômicos. É simplesmente um deslocamento de concorrência, então, atrapalha-se o quanto puder a geração hidrelétrica para favorecer à geração termoelétrica fóssil. Porque a água passa por aquele rio há 200 milhões de anos, não precisa de caminhão tanque para a transportar, ela vai sozinha, ela não paga o frete, não paga seguro, nem pedágio. Ela só precisa que alguém invista para construir uma usina por onde ela vai passar, às vezes bem pequena, às vezes até sem reservatório. Mas as ONGs que são alimentadas por grandes verbas da indústria do petróleo, organizam escândalos, protestos, dizendo até que a pequena hidrelétrica vai “engolir aquela agua toda” para o homem do campo e para pessoas crédulas e desavisadas. Dizem que a usina vai sumir com a agua, desaparecer com a agua, para transformá-la em lucro pra o empreendedor, como se a agua não saísse ainda mais limpa do outro lado da turbina e como se o mundo não precisasse de energia hidrelétrica, a mais barata e a única armazenável sob a forma de agua nos reservatórios. E como se os que assim falam tomassem banho com água quente gerada em seus painéis solares importados. Quando você tem geração fóssil você tem que construir a usina cara e poluente bem próximo da carga e aí você vai precisar transportar o combustível pelas estradas. Numa hidrelétrica você produz a energia num lugar seguro, indenizando as pessoas atingidas quando elas existem, onde aquele lago possa ser uma coisa boa para a população local, gerando empregos, receitas, favorecendo a irrigação e a piscicultura. Então transportamos a energia por fios, por cabos até a cidade. Só que esses cabos provocam uma perda e essa perda tem que ser considerada quando se calcula a energia realmente disponível em cada usina. Em 2008 o governo errou com a EPE e o Ministério impondo essas premissas equivocadas e agora não pode, depois de impor uma metodologia errada à sociedade, querer cobrar por seu erro aos geradores que foram obrigados a usar uma metodologia cujas premissas estão visivelmente erradas.”, completa Pugnaloni.
 
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