25/03/2021 às 15h55min - Atualizada em 25/03/2021 às 15h55min

BDC I 'Ninguém sonha em ser coveiro', diz engenheiro que virou sepultador

REDAÇÃO - BDC NOTICIAS.
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Formado em engenharia mecatrônica, Bruno de Lima, 26, trabalha há um ano como sepultador no Cemitério da Saudade, na zona leste de São Paulo. Ele foi contratado em uma das vagas abertas em caráter emergencial pela prefeitura no início da pandemia de covid-19, por meio de uma empresa terceirizada. "Ninguém sonha em ser coveiro, né? Me formei em engenharia mecatrônica, já tinha feito o [curso] técnico, já tinha experiência na área. Mas o único emprego que está tendo agora é em hospital e cemitério", conta Bruno. 

Antes da pandemia, ele estava se organizando para fazer um intercâmbio na Austrália. "Já estava com tudo certo para ir", diz. Agora, seu único plano é continuar trabalhando e juntar dinheiro até a pandemia acabar e as fronteiras reabrirem. Ele conta que, quando foi chamado por um conhecido para trabalhar no cemitério, achou que o colega estava brincando.

"Um colega meu falou: 'Quer trabalhar de coveiro?'. Falei: 'Você está brincando?'. Ele falou: 'Estou falando sério, você quer?'. Aí eu estava desempregado, as contas atrasando, falei: 'Vou ver o que acontece'", conta. "Mexia com tecnologia, com manutenção. Não tinha experiência nenhuma em cavar cova, em pegar pá. Quem já trabalhava como pedreiro, coisas assim, já tem facilidade maior para fazer o serviço", diz. "Mexia com tecnologia, com manutenção. Já vacinado contra o covid-19, Bruno circula pelo cemitério com ar de autoridade e paz. "Depois que você se acostuma, vira tipo um parque", diz. Para se proteger contra insetos e animais, ele veste blusa de manga comprida mesmo debaixo de um sol de 32ºC. Por baixo da roupa, usa ainda um colete para proteger a coluna. "Estava agora cavando ali, apareceu uma lacraia. Se ela pica, você tem febre, vai para o hospital. Teve um dia que estava exumando um corpo, peguei o crânio na mão, saiu uma lacraia de dentro e quase picou minha mão", relata. "Só chega mulher rica de Corolla, só carrão, para fazer os trabalhos. Outro dia deixaram até uma cabeça de bode", conta.

Por rádio, Bruno avisa a um colega: "Arruma bem a cova que chegou um anjinho. Não é covid, mas não vai velar". O anjinho era um bebê, morto em uma complicação durante o parto, no hospital Santa Marcelina. A mãe, internada com hemorragia, não pôde enterrar o filho. Cerca de 20 familiares participaram do cortejo e sepultaram o recém-nascido em um caixãozinho branco. "A gente tenta não ficar impressionado, mas tem uns casos que marcam. Teve um que me marcou muito no ano passado, era um menino de cinco anos que tinha morrido espancado pelo pai. O rosto dele estava todo machucado, cheio de hematoma. Aquele dia eu fiquei lembrando do rosto dele", conta.

Gabriel Dalmaso, 23, estava em seu primeiro dia de trabalho como coveiro. Há um mês, ele enterrou a avó, vítima de um AVC (Acidente Vascular Cerebral), no mesmo cemitério.
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