30/05/2018 às 14h07min - Atualizada em 30/05/2018 às 14h07min

Os efeitos da paralisação na economia

Empresas paradas, prejuízos milionários e queda do movimento no comércio

DIÁRIO CATARINENSE
Foto: Marco Favero / Diário Catarinense

A greve dos caminhoneiros ainda não foi completamente encerrada, mas independentemente da legitimidade das reivindicações, é certo que os bloqueios e desabastecimentos dos últimos 10 dias geram reflexos a curto, médio e longo prazo na economia de Santa Catarina. Queda no movimento turístico, empresas paradas, milhões em prejuízo na agroindústria e cargas não transportadas nos portos são algumas das principais consequências imediatas. Já a arrecadação do Estado deve ser afetada agora, com a produção prejudicada, e também nos próximos meses do ano, devido à retomada lenta.

A expectativa da Federação das Indústrias do Estado de Santa Catarina (Fiesc) é que, em média, as empresas do setor levem de um a dois meses para normalização da produção e do escoamento. A recuperação da economia catarinense no primeiro trimestre de 2018, com crescimento perto de 3% contra 1,8% do índice nacional, deve perder fôlego.

— Em abril já sentimos certa contração em função talvez de incertezas políticas, e agora com a greve certamente a contração será ainda maior. E também levaremos mais tempo para reiniciar o processo de crescimento — avalia o presidente da entidade, Glauco José Côrte.

Cadeia econômica e logística parada

Além da retomada gradual para voltar ao ritmo normal de produtividade e estancar as perdas, os próprios dias parados impactam diretamente nos cofres públicos. Sem produção, toda a cadeia logística e econômica não anda.

— Santa Catarina é um estado muito industrial. É uma semana de atividade parada e não se recupera o ritmo imediatamente — comenta o mestre em Desenvolvimento Econômico e doutor em Economia pela Universidade Vanderbilt (EUA), João Rogério Sanson.

Há também prejuízos que são sentidos agora e que terão desdobramentos futuros, com dimensões incertas. É o caso do comércio exterior que, conforme a Fiesc já deixou de exportar US$ 1 bilhão em todo o país (sendo US$ 350 milhões só da agroindústria). Até a tarde desta terça-feira, não haviam sido divulgados dados específicos de Santa Catarina.

O governo do Estado pontua ainda que, com a redução de R$ 0,46 no litro do diesel concedida pelo governo federal, a a arrecadação tributária do Executivo catarinense deve sofrer um impacto nos próximos meses. A Secretaria da Fazenda afirmou que os técnicos estão estudando cautelosamente os números e avaliando as possíveis e prováveis consequências, ressaltando que não é possível estimar valores neste momento.

Situação por setor

Indústria

Uma sondagem da Fiesc com 905 empresas mostrou que, entre as indústrias que responderam o questionamento da federação, 50,28% foram muito afetadas e 18,87% estavam paradas na tarde desta terça-feira. Entre grandes empresas ouvidas, 56,04% foram muito afetadas e 29,67% paralisaram as atividades. Embora não seja um levantamento que represente a realidade de todas as cerca de 51 mil indústrias associadas à Fiesc, é um indicativo do cenário em todo o Estado.

— O impacto da greve é extremamente prejudicial à indústria e a agroindústria certamente é a mais afetada. A estimativa é que, em média, o setor demore de um a dois meses para normalizar — analisa o presidente da Fiesc, Glauco José Côrte.

Sem entrar no mérito da paralisação, Côrte também ressalta que a federação concorda que a fórmula de reajuste quase diário dos combustíveis pela Petrobras não é a melhor:

— Nós até sugerimos que se fizesse um balanço a cada três meses para ver o comportamento do preço. O presidente Michel Temer (MDB) acabou acertando balanço a cada um mês, o que achamos que já é melhor do que acontecia até então.

Agronegócio

A Fiesc mantém a estimativa de que a agroindústria já acumula prejuízos de pelo menos R$ 200 milhões. 

Somente nos setores de carne e leite, o prejuízo é de R$ 20 milhões por dia, conforme cálculo do Sindicato das Indústrias de Carnes e Derivados de Santa Catarina (Sindicarne) e do Sindicato das Indústrias de Laticínios e Derivados de Leite de Santa Catarina (Sindileite).

A Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA) diz que desde o início da greve, são quase 70 milhões de aves mortas.  Volumes próximos de 120 mil toneladas de carne de frango e de carne suína deixaram de ser exportados desde o início da greve. A entidade também diz que cerca de 1 bilhão de aves e 20 milhões de suínos ainda estão em risco de morte como consequência direta dos bloqueios. Não há dados específicos de Santa Catarina até o momento.

Comércio

A Fecomércio-SC fez uma sondagem semana passada com empresários do comércio, serviços e turismo em Santa Catarina e constatou que para 77,3% dos empresários, a greve dos caminhoneiros afetou o abastecimento e a atividade da empresa de alguma maneira. Nesta terça a entidade iniciou nova sondagem e a atualização dos reflexos no setor deve ser divulgada até esta quarta-feira.

Já a CDL de Florianópolis estima que o movimento do comércio do centro da Capital reduziu em 66%, com os prejuízos no comércio já batendo a casa dos 63% de queda no faturamento diário. Os efeitos são sentidos por segmentos como o de confecções, calçados e presentes. O levantamento foi feito nos comércios localizados no entorno do Mercado Público Municipal e nas principais ruas do centro como, Conselheiro Mafra, Felipe Schmidt, Jerônimo Coelho, entre outras. De acordo com apuração, algumas lojas e restaurantes não abriram as portas na segunda-feira.

— Com o final de semana chegando a situação fica mais crítica e as vendas despencaram. O balanço atualizado não é positivo e sabemos que a partir desta terça, com a redução do transporte público coletivo, pode ser ainda maior —  diz o presidente da CDL de Florianópolis, Lidomar Bison.

Em diferentes níveis de gravidade, bares e restaurantes também são afetados no dia a dia das cidades. Os menores sofrem de forma mais imediata, já que têm pouco ou quase nenhum estoque e sentem falta dos produtos mais básicos desde o início da greve. Os grandes estabelecimentos acabam tendo mais fôlego, especialmente pela capacidade financeira e logística de armazenar quantidades maiores de insumos e por mais tempo. Mesmo assim, o impacto acaba chegando para todos.

— Além das dificuldades de abastecimento de alimentos, tem a diminuição do movimento de clientes. E nisso os restaurantes mais afastados sofrem ainda mais, no fim de semana especialmente, porque as pessoas não conseguem nem ir até os locais — destaca o conselheiro da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes em SC (Abrasel-SC), Fabio Queiroz.

Portos

Os terminais do Complexo Portuário do Itajaí-Açú, o maior do Estado, já registram movimentação menor nos últimos dias e, consequentemente, uma queda na receita. A entrada e saída de barcos em Itajaí não parou, mas o número de cargas caiu consideravelmente segundo o assessor de direção da superintendência, Héder Moritz. Com isso, cerca de 80% da área interna dos pátios está ocupada pelos contêineres que chegam no porto mas não conseguem sair pela falta de caminhões. A expectativa é que até o fim da semana o índice chegue a 100% se a greve não terminar. Desde o início da greve, entre 3 mil e 4 mil contêineres deixaram de ser movimentados no Complexo, mas não foram divulgadas estimativas de prejuízos em valores por conta da enorme variação conforme cada tipo de carga.

Sem receber caminhões e com um navio atracado — mas operando lentamente — o Porto de Imbituba calcula que já deixou de arrecadar R$ 1,2 milhão por conta dos atrasos causados pela paralisaçãoO terminal trabalha com 10% da capacidade e há oito navios na fila esperando para aguardando para entrar no porto.

No Porto de São Francisco do Sul, há cinco navios atracados, mas apenas um operando. Há outras oito embarcações fundeadas no canal da Barra esperando para atracar nos espaços hoje ocupados, mas ainda não há previsão de quando isso vai acontecer.

No Porto de Itapoá, a movimentação de contêineres dentro do terminal prosseguem dentro de condições normais. Da mesma forma, a operação de gate também está a postos para a entrega e recepção das cargas que utilizarem o terminal por via rodoviária.

Turismo

Com baixa procura e registro de cancelamentos por conta da greve dos caminhoneiros, o trade turístico projeta movimento fraco no Corpus Christi em SC. O Sindicato de Hotéis, Restaurantes, Bares e Similares de Balneário Camboriú e região (Sindisol) afirma que já houve cancelamento de reservas e que a expectativa inicial de atingir 50% da ocupação dos cerca de 20 mil leitos deve cair para em torno de 10 a 15%. No Estado como um todo, também se estima queda — havia projeção de 60 a 70% dos 147 mil leitos ocupados, mas o número deve ficar entre 40 e 50%. A Secretaria de Estado de Turismo, Cultura e Esporte diz que há uma preocupação com o impacto da greve no setor, mas que não há nenhum cancelamento em relação às ações da pasta até o momento.


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