Participação de insumos regionais no PIM cai de 32% para 18% em 20 anos, aponta estudo da Ufam

Participação de insumos regionais no PIM cai de 32% para 18% em 20 anos, aponta estudo da Ufam

MANAUS — A participação de insumos regionais do PIM (Polo Industrial de Manaus) caiu de 32,38% para 18,81% entre 2004 a 2024, segundo um relatório produzido por pesquisadores da Ufam (Universidade Federal do Amazonas) com base em dados da Suframa (Superintendência da Zona Franca de Manaus).

A redução silenciosa ao longo dos anos foi identificada pelos professores Augusto Cesar Barreto Rocha, Dimas José Lasmar e André Ricardo Reis Costa, no âmbito do projeto ANA (Análise de Logística e Negócios no Amazonas). A partir de agora, eles vão investigar as possíveis causas dessa redução, e já têm hipóteses preliminares.

Os pesquisadores elaboraram o relatório “Análise de Anomalias do Polo Industrial de Manaus”, que aponta a redução como o principal ponto crítico do modelo. Para eles, o dado indica que as cadeias produtivas do Polo Industrial de Manaus, quando vistas como um todo, em consolidado, têm “preterido a base produtiva local ao adquirir seus insumos”, mas é preciso aprofundar os estudos para saber se o dado representa um fator negativo para a economia regional.

“O que não se pode concluir é quanto a um juízo de valor sobre se é bom ou ruim e, sendo bom ou ruim, quem teria o mérito ou a culpa. Por isso, no momento, tão somente chamamos atenção para o dado e nos preparamos para pesquisas adicionais”, disse André Costa.

Os pesquisadores estão analisando milhares de dados que a Suframa disponibilizou desde 2000 sobre o comportamento da cadeia produtiva do PIM. O objetivo é investigar as possíveis causas das anomalias e “gerar bases para documentos e para a discussão de decisores públicos sobre políticas industriais ou estratégias empresariais”.

A análise ocorre no contexto de expansão do PIM, com entrada de novas empresas, e ao mesmo tempo pressões econômicas nacionais sobre o modelo. Em 2024 e 2025, durante as discussões da reforma tributária, os incentivos fiscais da Zona Franca de Manaus estiveram em discussão, e foram mantidos após muita negociação.

Até dezembro de 2025, segundo a Suframa, a Zona Franca de Manaus tinha 516 empresas e gerava 128,3 mil empregos diretos. Um estudo da FGV (Fundação Getúlio Vargas), coordenado pelo professor Márcio Holland, aponta que o modelo gera cerca de 500 mil empregos diretos e indiretos.

De acordo com André Costa, a redução identificada “não está necessariamente relacionada a enfraquecimento da cadeia produtiva regional”, apesar de que esta seja uma hipótese a considerar. Ele explica que há alguns setores que surgem como de baixa exposição à origem local, mas seus produtos são, em grande parte, intermediários, direcionados a outras cadeias locais. “E no final das contas colaboram com a regionalização”, disse o professor.

O Polo de Duas Rodas, por exemplo, registra cerca de 40% de insumos locais e é apontado como “caso virtuoso”, mas parte relevante dessa composição depende de fornecedores como o Termoplástico, que, mesmo com cerca de 11% de regionalização, integra a base de suprimentos locais do polo.

De modo semelhante, o setor Químico, com percentual entre 5% e 8%, fornece insumos essenciais para Eletrônicos e Bens de Informática. Assim, a aparente baixa regionalização de determinados segmentos não significa ausência de contribuição à economia regional, pois muitos atuam como elos intermediários que sustentam cadeias produtivas mais amplas e fortalecem, de forma indireta, o processo de regionalização.

André explica que a anomalia não se trata de redução absoluta da aquisição de insumos locais, mas de diminuição do seu peso ante as compras totais. Segundo o pesquisador, em certa medida, “o fornecimento local tem acompanhado o crescimento da produção e faturamento, mas num ritmo menor”.

O professor exemplificou como as aquisições evoluíram, em termos monetários, nos últimos 20 anos. Segundo ele, na avaliação do crescimento monetário, as compras locais foram as que menos cresceram, sendo superadas pelas importações e compras de outros estados.

“Pensando apenas em dólares, desde 2004 as compras totais aumentaram 152%, as importações aumentaram 239%, as compras de outros estados da federação aumentaram 143% e as compras locais cresceram 46%”, disse André.

“Chamo a atenção para o fato de que se trata de crescimento nominal”, afirmou o professor Dimas Lasmar, ao destacar que a inflação no período — tanto nos Estados Unidos (em dólar) quanto, principalmente, no Brasil (em reais) — superou, e muito, o crescimento das compras locais. “Há, portanto, uma perda importante na aquisição de insumos locais”, completou.

Hipóteses

A partir da identificação do ponto crítico, os pesquisadores trabalham com três hipóteses. A primeira é o aumento da tecnologia embutida nos bens de informática e eletroeletrônicos, que representam 21,17% do faturamento do PIM. Segundo os pesquisadores, isso eleva a quantidade e o valor unitário dos componentes de itens como TVs e celulares. “Esse seria um motivo quase incontornável para o aumento das importações”, afirma André.

A segunda hipótese está relacionada com o processo de reconhecimento dos créditos tributários nas operações interestaduais, que aumenta a atratividade do fornecimento por outros estados da federação. Nesse caso, os pesquisadores irão apurar se o ambiente tributário pode estar favorecendo a compra interestadual.

Ainda segundo os pesquisadores também há casos de produtos de baixa regionalização cujos clientes podem tanto ser de processos produtivos em outros estados quanto processos produtivos locais. Isso mostra que nem toda produção feita no PIM alimenta exclusivamente a cadeia interna. “Um exemplo dessa hipótese é a Placa de Circuito Impresso”, disse André.

Para André, do ponto de vista econômico, a eventual redução no nível de regionalização não deve ser interpretada, de imediato, como um fator negativo, mas como um sinal de alerta sobre a necessidade de fortalecer a competitividade do Polo Industrial de Manaus em bases concretas.

Segundo o pesquisador, a legislação tributária já cumpre seu papel, mas é preciso avançar no aprimoramento de competências locais, no mapeamento contínuo das capacidades disponíveis na região e na melhoria de regulações e questões estruturais.

André afirma que esse esforço está previsto desde a criação da Zona Franca de Manaus, porém não pode ficar restrito a um único ente público ou privado. Para ele, é fundamental que todos os segmentos da sociedade se sintam corresponsáveis por esse processo. Ele cita ainda que essas iniciativas já começaram a ser desenvolvidas no âmbito do Projeto ANA.

Augusto Cesar Barreto afirma que a competitividade deve ser o principal eixo orientador da gestão do Polo Industrial de Manaus. Para ele, isso exige um conjunto amplo de ações, que envolvem dimensões institucionais, macroeconômicas, microeconômicas e de infraestrutura, entre outras.

Augusto Cesar avalia que o debate costuma se concentrar quase exclusivamente na questão tributária — ou, no máximo, em temas logísticos pontuais, como uma rodovia —, quando o desafio é sistêmico. Segundo ele, enquanto a discussão permanecer restrita a variáveis isoladas, o modelo tende a avançar pouco e a não produzir transformações estruturais capazes de gerar impactos mais significativos para a população.

PPB

Ao comentar a influência dos PPBs (Processos Produtivos Básicos) sobre o nível de regionalização do Polo Industrial de Manaus, André Costa afirmou que os instrumentos têm papel relevante na dinâmica de aquisição de insumos, mas precisam ser analisados com mais profundidade.

Segundo o pesquisador, os PPBs são uma construção política que busca equilibrar dois objetivos: garantir que as empresas instaladas na Zona Franca cumpram etapas de transformação industrial e, ao mesmo tempo, não impor exigências tão rígidas que acabem por desestimular investimentos.

“Se não houver oferta de insumos ou competência instalada para determinadas atividades fabris, exigir um percentual elevado pode simplesmente inviabilizar o projeto industrial”, explicou.

De acordo com ele, as pesquisas adicionais do projeto ANA deverão identificar se há PPBs que precisam ser ajustados para alcançar um ponto ótimo de incentivo à regionalização. “Certamente, os PPBs cumprem um papel relevante nesse tema. Vamos buscar identificar onde é possível otimizar esse equilíbrio”, disse.

André citou o setor de Duas Rodas como exemplo de desenho considerado mais próximo desse equilíbrio. O PPB do segmento, segundo ele, estabelece exigências menores de nacionalização ou regionalização para empresas que estão iniciando suas atividades no PIM. À medida que essas companhias ampliam produção e consolidam mercado, o próprio regramento passa a exigir aumento nas aquisições nacionais ou regionais.

Para os pesquisadores, esse modelo progressivo cria um ambiente mais favorável ao investimento inicial e, ao mesmo tempo, estimula a integração gradual com a base produtiva local.

Apesar de o Polo de Duas Rodas registrar cerca de 40% de insumos regionais — o maior índice entre os grandes setores —, André pondera que ainda há espaço para avanços. “Se 40% já representam o maior nível de regionalização, significa que há 60% que ainda podem ser objeto de esforços futuros”, afirmou.

O professor disse que o desafio passa pelo mapeamento contínuo das competências existentes na região e pela adequação dos PPBs a essas capacidades. Segundo ele, a ideia não é exigir atividades cuja implantação em Manaus seria excessivamente onerosa ou inviável, mas identificar quais competências podem ser desenvolvidas localmente com ganhos de competitividade.

“Nós precisamos dispensar apenas aquelas competências que realmente não nos cabem, que seriam muito custosas de trazer. Mas, se identificarmos atividades que temos condições de internalizar, esse é o caminho para elevar o nível de regionalização”, concluiu.

Augusto Cesar Barreto avalia que o PPB pode funcionar como instrumento de aperfeiçoamento do modelo industrial da Zona Franca de Manaus. Para ele, uma evolução nos Processos Produtivos Básicos pode contribuir para corrigir distorções e fortalecer o Polo Industrial de Manaus.

“O PPB pode ser a ferramenta de correção. Uma evolução do PPB pode corrigir e melhorar o PIM. A amarração de insumos locais é uma das questões que o PPB pode ajudar bastante”, afirmou.

Segundo Augusto, o instrumento é central na política industrial local, mas seu uso exige cuidado. Ele pondera que eventuais atrasos na atualização das regras ou a utilização do PPB com caráter predominantemente restritivo podem limitar seus efeitos positivos.

“O problema surge em alguma lentidão eventual e em usar sua ferramenta para restrição, ao invés de usar para o estímulo de cadeias produtivas”, disse o pesquisador, ao defender que o mecanismo seja orientado para induzir o desenvolvimento e a integração produtiva regional.

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