Fumaça em Manaus vira crise ambiental inédita e mobiliza União, estado e município

Fumaça em Manaus vira crise ambiental inédita e mobiliza União, estado e município

A presença prolongada de fumaça na atmosfera de Manaus caracteriza uma crise ambiental inédita para a cidade, o estado e a Amazônia. Embora episódios de fumaça já tenham ocorrido na capital em anos anteriores, não havia registro de tantos dias seguidos com a qualidade do ar classificada como péssima em vários momentos do dia.

A gravidade exigiu uma mobilização sem precedentes de forças federais, estaduais e municipais durante o fim de semana e o feriado. O governo federal criou uma força-tarefa e enviou quatro aviões agrícolas Air Tractor e dois helicópteros para combater as queimadas e, na terça-feira, a Força Aérea Brasileira (FAB) entrou em ação com aeronaves KC-390 Millennium, com média prevista de três operações diárias de lançamento de água e retardante.

Nos dez primeiros dias de outubro, os focos de calor no estado cresceram 271% em relação ao mesmo período de 2025. Segundo o Inpe, o monitoramento de 48 horas em 11 e 12 de outubro apontou 1.485 focos na Amazônia, contra 47 no Cerrado, 16 na Caatinga, dois no Pantanal, um na Mata Atlântica e nenhum nos Pampas.

No início do mês, o procurador de contas Ruy Marcelo Alencar de Mendonça, a advogada Laíza Bezerra Maciel e o professor Marcelo de Vargas Estrella ajuizaram uma ação popular ambiental pedindo que a União, o Ibama, os estados do Amazonas e do Pará e o Instituto de Proteção Ambiental do Amazonas (Ipaam) esclareçam as medidas adotadas contra incêndios, queimadas ilegais e poluição do ar. Na segunda-feira, a juíza Mara Elisa Andrade, da 7ª Vara Federal Ambiental e Agrária do Amazonas, reconheceu a urgência e o dever constitucional de atuação estatal eficiente e determinou que os réus prestem esclarecimentos em dez dias.

Para o procurador, ainda faltam documentação e transparência em tempo real para saber se o planejamento é suficiente. A decisão também destacou os riscos para a floresta, o clima, a biodiversidade e o ciclo hidrológico, além dos efeitos da poluição sobre a saúde.

O analista ambiental do Ipaam Antônio Stroski avalia que o fundamental agora é cessar os focos com os meios já anunciados, mas com integração sob um mesmo comando. Para ele, faltou prevenção com antecedência mínima de um semestre, e é preciso levar aos produtores tecnologias que acabem com o uso do fogo no preparo do solo e ampliar o monitoramento e a fiscalização nos três níveis de governo. Ele observa que as queimadas também servem de instrumento de ocupação irregular do solo, de supressão da vegetação e de descarte de resíduos, e citou o incêndio recente no Distrito Industrial.

Entre as causas apontadas por especialistas estão o uso tradicional do fogo na agricultura familiar, muitas vezes sem assistência técnica adequada; as queimadas criminosas ligadas à grilagem e à expansão agropecuária, em que o fogo enfraquece a vegetação antes da derrubada; e a falta de prioridade política e de recursos para prevenção e combate, já que Corpo de Bombeiros, Batalhão de Policiamento Ambiental, Sema e Ipaam dependem de pessoal, dinheiro e equipamentos.

Ambientalistas lembram que a estiagem severa e fenômenos como o El Niño intenso deixam a vegetação mais seca e propensa a pegar fogo, e queimadas inicialmente controladas podem virar incêndios de grandes proporções quando faltam prevenção, fiscalização e responsabilização dos infratores.

Foto: Reprodução

Com informações do portal A Crítica.

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