Donos de flutuantes adotam estratégias e se preparam para seca no AM: ‘É o rio quem determina quando precisamos parar’

O nível do Rio Negro chegou a 24,93 metros, aumentando a preocupação entre empresários que mantêm estabelecimentos flutuantes na região do Tarumã, em Manaus. Com o avanço do período de estiagem no Amazonas e a expectativa de que a vazante alcance seu momento mais intenso entre setembro e outubro, os proprietários já começam a adotar medidas para reduzir os prejuízos e garantir a segurança das estruturas instaladas sobre o rio.
O registro de 24,93 metros representa uma redução de 14 centímetros em relação ao nível verificado no dia anterior. Embora a procura pelos estabelecimentos ainda permaneça, a diminuição gradual da profundidade dos rios começa a impor limitações para o funcionamento de restaurantes, bares, espaços de eventos e outros empreendimentos instalados sobre as águas.
Diante da possibilidade de uma vazante mais severa, os empresários estão planejando diferentes alternativas. Entre as medidas consideradas estão a transferência de parte das atividades para áreas de praia, a realização de férias coletivas, a redução temporária do quadro de funcionários e até a mudança de localização dos flutuantes para pontos onde a profundidade permita a continuidade das operações.
Os flutuantes são estruturas construídas ou instaladas sobre a água, normalmente sustentadas por boias, tambores, estruturas metálicas ou outros sistemas capazes de mantê-las na superfície. Na região amazônica, esses espaços são utilizados para diversas finalidades, como moradia, restaurantes, bares, áreas de lazer, hospedagem, comércio e realização de eventos.
Flutuante pode interromper atividades quando o rio atingir 17 metros
O flutuante Abaré, que reúne atividades de restaurante, hospedagem e eventos de música eletrônica, já trabalha com um planejamento para enfrentar os meses mais críticos da seca. De acordo com o proprietário, Diogo de Vasconcelos, a estrutura poderá ter as atividades suspensas caso o Rio Negro atinja a marca de 17 metros.
A estratégia estudada pelo empresário é transferir parte dos serviços para a área de praia próxima ao empreendimento. Dessa maneira, a intenção é aproveitar o espaço disponível durante a vazante para manter pelo menos uma parcela das atividades funcionando, mesmo que o flutuante precise ser temporariamente desativado.
O planejamento também considera um cenário de estiagem ainda mais intensa, especialmente diante da possibilidade de influência do fenômeno El Niño. Caso as condições previstas se confirmem, o empresário afirma que será necessário interromper completamente as atividades realizadas sobre a estrutura e concentrar os serviços na área de praia.
Além da mudança no local de funcionamento, a empresa avalia a adoção de férias coletivas e demissões temporárias durante o período mais crítico. A ideia é reduzir os custos enquanto o empreendimento estiver impossibilitado de operar normalmente e manter somente uma equipe reduzida responsável pelas atividades que possam continuar sendo realizadas em terra.
Entre os serviços que poderão permanecer disponíveis estão o atendimento de bar, restaurante e algumas opções de lazer. No entanto, a quantidade de funcionários deverá ser significativamente menor em comparação com os períodos de funcionamento normal.
Estruturas e equipamentos também são afetados pela vazante
A redução do nível da água não interfere apenas na movimentação de clientes e no faturamento dos estabelecimentos. A própria estrutura dos flutuantes precisa ser acompanhada constantemente, já que equipamentos instalados em pontos mais profundos podem ficar comprometidos à medida que o rio diminui.
Em determinadas situações, é necessário retirar ou desligar equipamentos que dependem de uma profundidade mínima para funcionar corretamente. Entre eles estão sistemas utilizados no tratamento de água e outros componentes essenciais para a operação dos estabelecimentos.
Quando o flutuante fica em uma região cada vez mais rasa, a manutenção desses equipamentos pode se tornar inviável e até provocar danos. Por esse motivo, os empresários precisam acompanhar diariamente as condições do rio e avaliar até que ponto é seguro manter as atividades.
O assoreamento do Rio Tarumã é apontado como um dos fatores que agravaram esse cenário. Com o acúmulo de sedimentos, determinados trechos ficaram mais rasos ao longo dos últimos anos, fazendo com que os empresários tenham que interromper as atividades antes do que acontecia em períodos anteriores.
Em anos anteriores, mesmo com níveis considerados baixos no Rio Negro, alguns empreendimentos conseguiam permanecer em funcionamento por mais tempo. Atualmente, entretanto, a menor profundidade do Tarumã faz com que a margem de segurança seja reduzida, antecipando a necessidade de paralisação.
Segundo o planejamento adotado pelo Abaré, a marca de 17 metros no Rio Negro passou a ser considerada um limite importante para a continuidade das operações no flutuante. A situação é diferente da observada em períodos anteriores, quando a estrutura conseguia funcionar mesmo com o rio em níveis ainda mais baixos.
Procura por flutuantes permanece mesmo durante a estiagem
Apesar das dificuldades provocadas pela vazante, a procura por espaços flutuantes não necessariamente diminui. Proprietários de estabelecimentos voltados para eventos afirmam que o calor característico do período continua atraindo clientes interessados em passar momentos de lazer próximos ao rio.
É o caso do flutuante Odara, administrado pela empresária Nádia Ferreira e utilizado principalmente para a realização de eventos privados. Segundo ela, a procura por reservas permanece elevada, mas o problema surge quando a redução do nível da água chega a um ponto em que a estrutura deixa de oferecer condições adequadas para utilização.
Com a aproximação da segunda metade de setembro, os responsáveis pelo empreendimento já consideram a possibilidade de algumas reservas precisarem ser canceladas. A decisão dependerá diretamente da intensidade da vazante e das condições apresentadas pelo local onde o flutuante está instalado.
Mesmo com as reservas mantidas inicialmente, os clientes são informados de que existe a possibilidade de cancelamento caso a baixa do rio comprometa a segurança ou torne inviável o uso da estrutura. Uma das alternativas para evitar a interrupção completa do empreendimento é deslocar o flutuante para uma região com maior profundidade.
No entanto, não existe uma única medida oficial do nível do Rio Negro capaz de determinar, sozinha, quando um estabelecimento precisa parar de funcionar. Cada empreendimento possui características próprias, especialmente em relação ao ponto de ancoragem e à profundidade do trecho do rio onde está localizado.
No caso do Odara, por exemplo, a avaliação leva em consideração principalmente o comportamento da água na área específica onde a estrutura está instalada. Dessa forma, mesmo que a cota oficial do Rio Negro indique determinado nível, as condições encontradas no ponto de ancoragem podem ser diferentes e exigir uma decisão específica.
Estiagem provoca impacto direto sobre trabalhadores
Os efeitos da vazante também ultrapassam as questões relacionadas aos proprietários dos estabelecimentos. Uma grande quantidade de trabalhadores depende direta ou indiretamente da movimentação provocada pelos flutuantes e pela circulação de turistas e moradores na região do Tarumã.
Quando os estabelecimentos deixam de funcionar, toda essa cadeia de serviços acaba sendo afetada. Profissionais responsáveis pela limpeza, manutenção, lavagem de roupas, coleta de resíduos, segurança e outras atividades podem ter a renda reduzida ou até ficar temporariamente sem trabalho.
O impacto, portanto, não se limita à perda de faturamento dos empresários. A interrupção das atividades representa uma mudança significativa na rotina de pessoas que vivem ou trabalham na região e dependem do movimento gerado pelos empreendimentos instalados sobre o rio.
Durante os meses de seca, a redução no número de clientes provoca uma reação em cadeia. Com menos visitantes, há menos necessidade de limpeza, menor quantidade de roupas para lavar, redução na coleta de lixo e diminuição da demanda por diversos outros serviços que normalmente movimentam a economia local.
Segurança dos flutuantes também vira preocupação
Outro problema que ganha importância durante a estiagem é a segurança das estruturas. Com a diminuição da movimentação na região e o fechamento temporário de vários empreendimentos, os proprietários passam a redobrar os cuidados para evitar furtos e outros problemas.
Antes que a vazante alcance níveis mais críticos, os responsáveis pelos estabelecimentos realizam uma série de procedimentos preventivos. Entre eles estão o reforço das amarrações, a revisão das estruturas, o ajuste dos pontos de sustentação e a retirada de equipamentos e objetos de maior valor.
A posição do flutuante também precisa ser monitorada constantemente. A redução da lâmina d’água pode fazer com que a estrutura fique sobre uma área irregular, próxima a um barranco ou em um ponto onde a profundidade já não seja suficiente para garantir estabilidade.
Nessas condições, existe o risco de o flutuante inclinar, sofrer deslocamentos ou até apresentar danos estruturais. Por isso, os proprietários precisam acompanhar a evolução da vazante e realizar mudanças sempre que necessário.
Para quem trabalha diariamente na região do Tarumã, a dinâmica do negócio está diretamente ligada ao comportamento do rio. Durante o período de cheia, a água oferece condições para que os estabelecimentos funcionem normalmente. Já na estiagem, a redução da profundidade determina quando é possível continuar operando e quando chega o momento de interromper as atividades.
Com a previsão de que a seca se intensifique nos próximos meses, empresários e trabalhadores do setor permanecem atentos às mudanças no nível dos rios. A expectativa é encontrar alternativas que permitam minimizar os impactos econômicos e sociais, preservar as estruturas e, sempre que houver condições seguras, manter parte das atividades durante o período de vazante.
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